hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias*
Passeio sozinha pelos escuros fins-de-tarde da cidade. Está frio e guardo as mãos e os bilhetes nos bolsos, enquanto desço a escadaria iluminada da Casa da Música. Apresso-me entre dois quarteirões, só para sentir aquele desconfortável impulso do vento na ponta do nariz. Dentro de muitos carros, homens e mulheres em rotinas silenciosas feitas de percursos, parados no vermelho, entretidos a pisar pedais durante o verde. Espreito uma Gioconda sem moldura que descansa sobre uma parede vermelha e, noutra sala logo adiante, um abat-jour quadrado ilumina uma fotografia. Gosto tanto de luzes quentes, de confortáveis tons quase dourados - sinto vontade de me sentar a ler um livro naquelas salas que não conheço. Passo pelo relvado desordenado de um jardim e o sensor da porta da garagem acende-se para me receber e dois gatos brancos quase iguais correm a esconder-se numa ilha (palavra só para tripeiros). Uma mulher, carregada de compras de supermercado, inclinada para o lado direito e a falar baixinho com algum dos seus feios botões de plástico. Tiro a mão do bolso e enrolo os dedos à volta de uma madeixa. Um irrequieto setter inglês acaba de pôr as duas patas sobre a minha saia e abana a cauda sem parar enquanto o dono pede desculpa - mal ele sabe que o que me apetecia mesmo era ter um cão. A ameixoeira e a magnólia imitam a grande árvore do largo, que dança com o vento. Chego a casa.
* - Eugénio de Andrade








