sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias*

Passeio sozinha pelos escuros fins-de-tarde da cidade. Está frio e guardo as mãos e os bilhetes nos bolsos, enquanto desço a escadaria iluminada da Casa da Música. Apresso-me entre dois quarteirões, só para sentir aquele desconfortável impulso do vento na ponta do nariz. Dentro de muitos carros, homens e mulheres em rotinas silenciosas feitas de percursos, parados no vermelho, entretidos a pisar pedais durante o verde. Espreito uma Gioconda sem moldura que descansa sobre uma parede vermelha e, noutra sala logo adiante, um abat-jour quadrado ilumina uma fotografia. Gosto tanto de luzes quentes, de confortáveis tons quase dourados - sinto vontade de me sentar a ler um livro naquelas salas que não conheço. Passo pelo relvado desordenado de um jardim e o sensor da porta da garagem acende-se para me receber e dois gatos brancos quase iguais correm a esconder-se numa ilha (palavra só para tripeiros). Uma mulher, carregada de compras de supermercado, inclinada para o lado direito e a falar baixinho com algum dos seus feios botões de plástico. Tiro a mão do bolso e enrolo os dedos à volta de uma madeixa. Um irrequieto setter inglês acaba de pôr as duas patas sobre a minha saia e abana a cauda sem parar enquanto o dono pede desculpa - mal ele sabe que o que me apetecia mesmo era ter um cão. A ameixoeira e a magnólia imitam a grande árvore do largo, que dança com o vento. Chego a casa.


* - Eugénio de Andrade

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

:)



A dona desta mão é uma senhora franzina de cabelos muito brancos que hoje faz 90 anos e que, naquelas férias grandes sem fim, me trazia favos de mel, tomates vermelhos, fatias de melancia. E as estrelas da companhia - morangos silvestres que orgulhosamente plantava junto aos pessegueiros.


fotografia por angela

as estrelas por uma moeda

Todos os dias passo por um feio avião azul à entrada de um supermercado e todos os dias aquela geringonça, numa espécie de convite: come on, climb abord and let's hit for the stars. E eu, em vez de ir voar, subo as escadas e vou examinar demonstrações financeiras.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

porque há tantas outras coisas que se podem fazer à chuva





A cidade encharca-se, quando pouso as mãos nos troncos das árvores os dedos ficam húmidos e a grande aranha amarela com pintas pretas, que este ano ainda não fotografei, esconde-se no meio da hera para fugir às nuvens. Manhã cedo, as grossas gotas querem imitar as pancadas que os bicos dos melros dão nas caleiras e acordam-me, devagar. Também o vento me acorda. E aquele solo de trompa aqui no play.


Fotograma de "Woman of Water"
Angelo Badalamenti – Mysteries of Love (French Horn Solo)


três oitavas e meia

De repente, uma música mostra-me uma clareira inteira de serenidade e por ali me deixo ficar. Uma calma brilhante e quase triste mas feita de lágrimas tão transparentes. É engraçado como na música de Badalamenti descubro muitos lugares assim. Respiro fundo - esqueço-me tantas vezes de respirar - e, baixinho, como num forte abraço: eu sei. O que, se fechar os olhos, também pode parecer um beijo. Aquele solo de trompa ali em cima no play. Aquele youtube logo abaixo.

and dance in light



sometimes a wind blows and you and I float in love
and kiss forever in a darkness
and the mysteries of love come clear
in you in me
and show that we are Love


Julee Cruise - Mysteries of Love
Lyrics - David Lynch
Music - Angelo Badalamenti

ajustamentos de partes de capital em filiais e associadas

Algo não vai bem quando dou por mim a rir-me de uma piada contabilística num qualquer centro de congressos de um hotel.

domingo, 15 de Novembro de 2009

a manta cor-de-laranja e os pés em cima do sofá

Voltar a um livro é tantas vezes uma surpresa. Ainda que a memória insista em guardar alguns enredos e passagens. Os cheiros são diferentes, os meses são outros, outros os pássaros que cruzam a estrada em frente ao carro. Todo dentro do papel, como eu gosto, o nariz transforma a página 221 na primeira página do capítulo primeiro.

sei lá que título dar a isto

A propósito de primeiras impressões. Enquanto dou e não dou a volta ao mundo, tenho a mania de levar comigo uma caixa com muitos pincéis e variados pigmentos coloridos que não paro de espalhar sobre a tela inicial. Às vezes, chego mesmo a desenhar intrincadíssimos trompe-l'oeil. Finjo que não me ouço. Até que, sensível à luz, algum desses pigmentos esmorece. E sim, New York é uma cidade tão bonita.

sábado, 14 de Novembro de 2009

estado atmosférico

Enquanto a Pimenta se prepara para hibernar, descubro através do Facebook que uma amiga se casou: registo civil, eles e talvez umas cinco testemunhas e posterior anúncio no news feed, qualquer coisa como X changed relationship status. Entretanto, do outro lado do oceano, alguém se estende ao sol e nos spas da Jamaica. Evry'ting ok? Wanna smoke?

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

a voz sobre as sílabas





Às vezes, consoantes e vogais agarram-se, ajustam-se, combinam-se e voam do interior da garganta e da ponta dos dedos, rápidas, ágeis como pássaros, soltas e estouvadas e quase crianças alegres, alheias ao que virá. Alheias aos rasgões na pele num lugar qualquer para cá das costelas.


Imagens publicadas com a devida autorização do Autor.
Muchas gracias, Fernando.


Natasha Marsh - Vocalise Op. 34 nº 14 - Sergei Rachmaninoff

quase sempre a Antena 2
quase sempre no volume máximo

Escolho as notas de um perfume: cedro, frutos ou florais, jasmim, cyclamen ou madeiras. Pequenas tiras de papel mergulhadas em aromas que deixo misturadas na carteira, nos pulsos e nos dedos - até que me decido. Visto-me de perfume como quem veste uma saia rodada e um par de meias pelo joelho. Entretanto, esta cidade enche-se de chuva e revela deliciosos restaurantes vegetarianos, fatias de bolo de alfarroba com uma noz de nata e frutos silvestres.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

para que serve este blog

Para guardar alguns textos em rascunho e manter-se em silêncio enquanto, paciente, durante vários dias exibe o mesmo youtube.

Para me lembrar que existe um botão que me pode apetecer a qualquer minuto.

Para abrigar as minhas canções, as botas pretas e as chávenas de chá, as tantas outras coisas que se podem fazer à chuva, os quadradinhos de chocolate e os meus pássaros invisíveis.

Para não demorar mais do que alguns minutos a ler, de fio a pavio.

Para nada.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

acabou Outubro



Dentro deste Let Go dos The Postmarks há relva, uma sombrinha que rodopia e raios de sol.

domingo, 1 de Novembro de 2009

dos domingos não gostava -
sentia uma coisa que era amarelo pra dentro e pra fora que era sujo

E depois de assistir a esta curta-metragem de Daniel Lima e João Paulo Cotrim, senti vontade de reler a Engomadeira das «Ficções» de Almada Negreiros:

Meditava no mau passo que a mãe dera co'o grumete do S. Rafael e recordava os tempos impossíveis da engomadoria. E sentia-se uma eleita na infelicidade, nesta coisa de não querer viver e ter medo de se matar e ainda por cima o rapaz que a enganou tinha embarcado para Lourenço Marques e tinha mandado dinheiro a uma dessas para se juntar com ele. Não que ela sentisse saudades dele ou de qualquer outro porque ela sabia muito bem que nascera assim sem poder gostar de ninguém; pra ela tudo era o que não lhe importava. Admirava-se até de se ter deixado levar por aquele maldito caixeiro que nem sequer tinha bigode. Mas também, pensava, se não fosse ele seria outro e ele foi exactamente um qualquer. Não há teoria mais cómoda que o fatalismo, porém, ela usava-o não por comodidade mas por temperamento indiferente. As trovoadas se eram de dia achava ela que deveriam ser à noite por causa dos relâmpagos mas se eram de noite achava estupidez tanto barulho com tanta vontade de dormir. Pra ela não havia diferenças de espécie alguma - nunca quis mais aos garotos por andarem descalços nem lhe invejavam as que tinham automóvel. Mesmo esta coisa de almoçar e jantar era só se tivesse fome, de resto dormir é que era bom. A vida não lhe era muito difícil nem tão-pouco muito fácil era justamente aquilo - como um carro do Dafundo que vem à Rotunda e volta depois pró Dafundo. E diga-se de passagem o caixeiro tinha-lhe feito um grande favor. E como era assim uma miúda que entra facilmente no gosto de toda a gente e só lá de vez em quando é que precisava de umas brise-bise mais modernas ou umas fitas de cetim pra enfeites de camisas não teria que se esfalfar muito [...]

«A Engomadeira - Novela Vulgar Lisboeta»
José de Almada Negreiros


sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

no Outono a minha árvore despe-se devagar

Fui vê-la. De vez em quando, quase sem ruído, deixa cair uma folha. E há raios de sol que, preguiçosos e sorridentes, se estiram sobre a relva.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

segundos violinos e quatro oitavas



If you gotta run, run from hope

I know I'll never be lonely
I've got songs in my blood ♫♪♪♭♫♪♫♭

I'm carrying all the love of an orchestra
gimme the love of an orchestra


so now in my deepest sorrow
there's no need for despair

I'm carrying all the love of an orchestra
gimme the love of an orchestra




Noah and the Whale - Love of an Orchestra

O nada que seria de mim sem música.


Imagem de stock.xchng